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Burnout, ansiedade e TDAH: bar de Curitiba gera debate com promoção para quem apresentar laudo

Burnout, ansiedade e TDAH: bar de Curitiba gera debate com promoção para quem apresentar laudo


Cardápio do Terapya Bar tem drinks com nomes de transtornos mentais e chamou atenção na internet. Estabelecimento foi inaugurado em 2024. Especialistas comentam estratégia adotada Ansiedade, bipolaridade, borderline, burnout, esquizofrenia e TDAH. A lista que pode parecer parte de prontuários médicos é, na verdade, parte do cardápio de um bar de Curitiba (PR). O menu inusitado é de autoria do Terapya Bar, que viralizou nas redes sociais e gerou debate entre usuários ao não apenas batizar as bebidas com nomes associados a distúrbios mentais, mas ainda oferecer uma promoção para clientes que apresentarem laudo de uma das condições médicas.
Fundado em abril de 2024 pelos amigos Luiggi Kramer, 26 anos, e Paulo Mathias, 23, o Terapyar Bar surgiu com o propósito de oferecer um espaço criativo, inicialmente focado nos universitários da cidade. As redes sociais foram um dos caminhos para que a divulgação chegasse ao público-alvo. Hoje, grande parte dos conteúdos virais vem do perfil no Instagram e TikTok de Mathias, que começou a compartilhar vídeos sobre o bar antes mesmo da inauguração do espaço.
“No início, a ideia era impulsionar a inauguração. Agora, estamos focando bastante nas redes sociais do próprio bar, postamos semanalmente para divulgar o que vamos ter durante a semana e quais são as promoções. Assim, vamos atraindo um público que não conhecemos, o que é muito legal”, diz Mathias.
Desde que foi inaugurado, o estabelecimento também se tornou assunto nos perfis dos clientes do espaço. Uma publicação no X que mostra o cardápio de drinks do bar soma 1,9 milhão de visualizações. “Os drinks do bar que eu vim aqui em Curitiba tô mal demais [sic]”, escreveu o autor do post. Nos comentários, usuários elogiaram a criatividade. “Maravilhoso desde a sua concepção”, escreveu um.
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De acordo com os fundadores, a maioria das interações nas redes sociais são positivas para o negócio. “Eu consigo contar nos dedos quem não gosta e acha a ideia ruim”, afirma Mathias. Para os empreendedores, a principal polêmica surgiu após a divulgação, no perfil de Mathias, de uma promoção do bar, na qual o empresário afirma que o estabelecimento oferece desconto para clientes que levarem laudos médicos que atestem que o consumidor tem um dos transtornos listados no cardápio.
O vídeo, que conta com 420,6 mil visualizações no TikTok, gerou debate entre internautas. Enquanto alguns apoiaram a ideia, outros demostraram preocupação com o impacto do álcool em pessoas que lidam com as condições médicas. “Mas os drinks têm álcool? Porque quem tem transtorno e toma remédio controlado…”, questionou uma usuária.
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Associar transtornos mentais a promoções: o que dizem especialistas?
Bianca Bolonhezi, psiquiatra fundadora do Instituto Macabi, afirma que muitos medicamentos psiquiátricos têm interações perigosas com o álcool, o que deve ser objeto de atenção de pessoas que fazem acompanhamento médico para tratar as condições. “O álcool é um depressor do sistema nervoso central e, quando combinado com medicamentos que também agem nesse sistema, seus efeitos são potencializados, provocando sedação excessiva, tontura, confusão mental, diminuição da coordenação e dos reflexos”, afirma a especialista.
Segundo Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan, o consumo de álcool deve ser evitado mesmo em tratamentos que não usam medicamentos. Roma explica que com o efeito depressor, que implica na redução da atividade cerebral, o álcool traz impactos negativos para os sintomas de diferentes transtornos, como depressão, ansiedade e transtorno bipolar, mesmo com a sensação momentânea de que o consumo é benéfico.
Do ponto de vista legal, advogados ouvidos por PEGN afirmam que não há uma vedação expressa a campanhas que relacionem transtornos mentais a ações promocionais. Os especialistas afirmam que o contexto da promoção deve ser considerado, mas destacam que, a partir da interpretação de algumas legislações, há risco de violação de direitos.
Rubens Gonçalves Leite, advogado e sócio gestor da RGL Advogados, aponta que, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), os dados relativos a condições de saúde são dados pessoais sensíveis (LGPD, art. 5º II). “O art. 11 § 4º proíbe a utilização de dados sensíveis para gerar vantagem econômica quando há compartilhamento entre controladores. Ainda que esse compartilhamento não ocorra no caso, a orientação da lei é clara: evitar qualquer exploração comercial de dados de saúde”, afirma. Por outro lado, os especialistas sugerem que não há explícita clara da lei se houver o consentimento dos consumidores.
Leite ainda aponta que vincular um benefício comercial ao estado clínico do cliente pode caracterizar segmentação indevida por condição de saúde, violando o Código de Defesa do Consumidor (CDC artigos 6º IV, 37 e 39 IV). O advogado também indica que, mesmo sem força de lei, o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (Anexo A) veda associar bebidas alcoólicas a benefícios terapêuticos ou usar doenças como apelo de venda.
Pedro Amorim de Souza, advogado e coordenador da área consultiva do Martins Cardozo Advogados Associados, ressalta que a questão não pode ser tratada de forma genérica, porque não está dissociada de elementos específicos ao contexto do bar, de sua clientela e de sua proposta. “As pessoas entenderam como uma brincadeira e levaram com bom humor. […] O que o bar fez foi juntar ao redor de si uma comunidade de frequentadores que se reconhecem nesse espaço, nesse tema e no tom descontraído com o qual é tratado”, diz Souza.
O que diz o bar
Os empreendedores afirmam que, após a repercussão, eles conversaram sobre as críticas, mas optaram por manter a dinâmica. “Pensamos que quem quer sair para beber, vai sair. Ao mesmo tempo, também temos as opções de drinks sem álcool da casa que fazem parte da promoção e a maioria dos drinks dá para fazer sem álcool”, aponta Mathias. “Se a pessoa quer tomar álcool, no mínimo ela pode fazer isso com conscientização de que ela tem essa condição e que tem que tomar cuidado com isso”, complementa Kramer.
Ajustes e expansão
Novatos na jornada empreendedora, os fundadores afirmam que o estabelecimento está em constante processo de adaptação, com mudanças que vão da gestão do negócio às ações comerciais. Para Kramer e Mathias, o principal ajuste até agora foi na precificação dos produtos e na gestão de caixa.
Os amigos afirmam que inauguraram o espaço apostando em preços baixos para atrair a clientela, mas a prática se tornou insustentável ao longo prazo. Além disso, com a aposta no público universitário, o bar enfrentou uma queda no número de consumidores no período de férias das faculdades. “Entendemos que durante o ano precisamos começar a fazer um caixa para momentos que realmente não temos como escapar”, aponta Kramer.
De acordo com os empreendedores, o negócio bateu um faturamento mensal de R$ 55 mil no quarto mês de operação, mas o número entrou em ritmo de queda a partir do sexto mês, e voltou a se recuperar agora. No último mês, a casa faturou cerca de R$ 45 mil.
Para ampliar a divulgação e começar a trabalhar a marca em outras localidades, os amigos vêm investindo em uma nova frente a partir da promoção de eventos. A primeira ação fora de Curitiba aconteceu em São Paulo (SP) em maio deste ano. Chamada de Terapya Party, a festa promovida pelo bar atraiu aproximadamente 700 pessoas. O evento contou com um investimento de R$ 38 mil, proveniente da venda de ingressos.
A próxima edição já está em fase de planejamento e deve acontecer em outubro, também em São Paulo. “Vamos tentar levar a festa em datas que coincidam com outros eventos, como é o caso de outubro com a Brasil Game Show. A cidade fica cheia de turistas e pessoas que buscam um after depois do evento”, diz Mathias.
Os empreendedores afirmam que já receberam contatos de investidores em São Paulo e estudam a possibilidade de inaugurar uma unidade do negócio na capital paulista. Para eles, o objetivo é garantir a continuidade do sucesso da operação da matriz para, depois, mergulhar no projeto de expansão. “Queremos estar com tudo mais organizado. É algo mais de médio e longo prazo, por mais que já tenham pessoas entrando em contato com a gente”, conclui Mathias.
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