Demanda por acessibilidade no mercado editorial gera oportunidade para pequenos negócios

Livros em braile, digitais e projetos adaptados para pessoas com transtornos de aprendizado são alguns dos caminhos Em um mercado que fatura mais de R$ 4 bilhões ao ano, segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), a acessibilidade para pessoas com deficiências e transtornos de aprendizagem ainda não faz parte da produção massiva de muitas empresas que dominam o setor editorial. Nesse cenário, com uma baixa oferta e um grande potencial de demanda, especialistas ouvidos por PEGN afirmam que o nicho pode ser uma boa oportunidade para pequenos negócios.
“Muitas editoras ainda veem a acessibilidade como uma obrigação legal em vez de uma oportunidade de mercado, o que limita o investimento em inovações. Como os pequenos negócios costumam ser mais ágeis e flexíveis, podem se especializar em nichos de mercado e criar produtos que atendam especificamente às necessidades de leitores com deficiências”, explica Nathalia Barbosa, analista do Sebrae Rio e gestora do projeto de Mercado Editorial do Sebrae do Rio de Janeiro.
De acordo com um estudo promovido em 2023 pela Fundação Dorina para Cegos, em parceria com o Instituto de pesquisa Datafolha, mais da metade dos deficientes visuais e pessoas com baixa visão entrevistados (51%) atribuem nota de 0 a 6 para a facilidade de aquisição de livros acessíveis. Mesmo com os desafios, a pesquisa aponta que o gosto pela leitura é declarado por 63% do público, um aumento de 8 pontos percentuais em relação aos dados levantados em 2019.
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Para Alexandre Munck, superintendente executivo da Fundação Dorina para Cegos, a importância da acessibilidade vem sendo notada pouco a pouco ao longo dos últimos anos. Apesar dos desafios de produção, Munck afirma que o nicho tem se apresentado como uma oportunidade estratégica para negócios que buscam o apoio da fundação para a produção dos livros.
Foi o caso da Editora Mostarda, que chegou ao mercado em 2019 com cinco biografias de personalidades negras e começou a expandir o portfólio a fim aumentar suas frentes de inclusão. Pedro Mezzete, fundador do negócio, afirma que foi em razão do interesse do público que a editora conseguiu ampliar o número de títulos de cinco para 160 em cinco anos, incluindo biografias de indígenas e pessoas com deficiência. “Para ser inclusivo, eu sabia que precisava ir além do que já oferecia. Por isso, entre 2021 e 2022, começamos a produzir versões em braile dos nossos livros”, diz Mezzete.
Atualmente, a editora conta com 42 títulos disponíveis em braile, que são fabricadas por demanda. Segundo o fundador, a expectativa é continuar expandindo a oferta desse tipo de obra até contar com a versão para todos os títulos da editora que possam ser adaptados. Em razão da necessidade de matérias-primas e maquinários específicos para a impressão em braile, a Editora Mostarda mantém uma parceria com a Fundação Dorina para a produção.
De acordo com o superintendente executivo da Fundação Dorina, que não tem fins lucrativos, a instituição é um caminho para os negócios que desejam oferecer opções acessíveis sem investimentos imediatos em estrutura própria. “Sempre temos soluções viáveis para editoras pequenas e atendemos diversas empresas menores. Nosso objetivo é que haja o maior número possível de livros acessíveis no mercado, então conseguimos atender qualquer editora, independentemente do seu tamanho”, comenta Munck.
Impressora para braile usada pela Fundação Dorina Nowill para Cegos
Divulgação
Para Barbosa, do Sebrae, a resistência de grandes editoras em produzir livros acessíveis pode ser explicada pelo custo mais elevado de produção, mas também pela falta de conhecimento sobre as necessidades específicas desse público, além de uma percepção equivocada de que o mercado para esses formatos é pequeno.
Munck ressalta que, mesmo com um custo quatro a cinco vezes mais alto, em razão dos processos de adaptação, impressão e maior volume de páginas, a demanda e a importância da fabricação dos materiais mantém o mercado atrativo. Em 2023, entre livros próprios e parcerias com outras empresas, a Fundação Dorina para Cegos imprimiu mais de 14 milhões de páginas em braile e movimentou cerca de R$ 5 milhões a partir das soluções de acessibilidade oferecidas para as editoras, que também incluem livros digitais e audiolivros.
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Outros formatos
Outras soluções que permitem a entrada de editoras na oferta de opções acessíveis são os livros digitais (e-books) e os audiolivros, formatos que vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado. Segundo pesquisa do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o faturamento do mercado editorial com conteúdo digital cresceu 158% nos últimos cinco anos.
A Bookwire, empresa de solução para a produção, distribuição e comercialização de e-books, audiolivros, podcasts e impressão sob demanda, foi uma das companhias que viu na acessibilidade uma oportunidade de impulsionar o negócio. Fundada em 2010 como uma startup, a empresa conta com clientes que vão de grandes grupos editoriais a pequenos editores. O trabalho com soluções acessíveis começou em 2019 e, segundo Isadora Cal, head de novos canais e desenvolvimento de novos negócios na Bookwire Brasil, os formatos inclusivos vem ganhando cada vez mais espaço entre os clientes.
“Entendemos que tínhamos a oportunidade de ser um agente de incentivo para o mercado editorial e começamos a falar ativamente sobre acessibilidade e facilitar os caminhos para a produção de ebooks acessíveis […]. Saímos de uma base de zero e-books acessíveis em 2019 para mais de 8 mil hoje, sem contar com mais de 3 mil audiobooks, naturalmente acessíveis”, comenta Cal.
A executiva, que é mestre em editoração pela Oxford Brookes University, explica que para um livro digital ser considerado acessível é necessário seguir parâmetros de acessibilidade na web. No caso de um epub (principal formato de livro digital), por exemplo, o funcionamento se dá a partir de um código pensado para web que é lido pelo dispositivo usado. Nesse formato, o usuário pode fazer as próprias configurações para facilitar a leitura, permitindo que uma pessoa com baixa visão consiga aumentar a fonte até que consiga ler o texto ou que alguém com transtornos de aprendizagem escolha fontes otimizadas, por exemplo.
Cal fala que, no caso dos livros pensados para a inclusão, o código é o que garante a adaptabilidade do arquivo. “A experiência de uma pessoa que usa tecnologia assistiva é mais auditiva e tátil, então é preciso garantir que o e-book seja produzido de forma correta”, aponta. Nesse sentido, os livros digitais acessíveis devem ter indicadores internos para marcar capítulos, descrições de imagens que não atrapalhem a leitura do texto, além de tabelas e gráficos com descrição e outros atributos que permitam uma experiência próxima a de leitores videntes.
Nesse sentido, além de deficientes visuais, os livros digitais acessíveis facilitam o acesso à leitura para outros grupos, como pessoas com transtornos de aprendizagem, como a dislexia. Segundo Maria Angela Nogueira Nico, Presidente da Associação Brasileira de Dislexia (ABD) não há editoras no Brasil com uma gama de produtos pensados especificamente para este público. De acordo com a especialista, ainda que as necessidades variem para cada pessoa, em geral, os disléxicos apresentam dificuldade de retenção e assimilação de informações a partir da leitura convencional, e carecem de recursos que auxiliem na compreensão do texto.
“Os livros com fontes específicas ajudam muito a reduzir a confusão entre as letras e a legibilidade do texto. O espaçamento adequado entre as letras e as palavras podem reduzir a fadiga visual, podendo tornar o texto mais acessível. Textos com layouts simples, com margens amplas, parágrafos mais curtos e espaçamentos adequados entre linhas ajudam muito, principalmente nas provas. Usar cores para destacar palavras auxilia a destacar informações importantes e a melhorar a compreensão do texto”, explica Nogueira.
Com a baixa oferta de produtos pensados para este público, a professora e escritora portuguesa Rosário Ova vem ganhando consumidores brasileiros com livros infantis adaptados para pessoas com dislexia. De acordo com ela, a produção começou a partir da adaptação de textos para alguns alunos e, com a recepção positiva, ela começou a criar as próprias histórias e poesias, que acabaram sendo transformadas em livros.
Poema produzido por Rosário Ova em layout adaptado para pessoas com dislexia
Divulgação
As vendas começaram apenas em Portugal, com livros físicos. Contudo, depois de disponibilizar seus títulos em formato digital, Ova passou a encontrar consumidores brasileiros interessados no produto, atingindo a venda de cerca de 12 e-books por mês no Brasil. De olho no potencial do mercado — o Brasil tem cerca de oito milhões de pessoas com dislexia, segundo a ABD —, a escritora espera aumentar as vendas a partir de divulgações pensadas estrategicamente para o país.
Com as possibilidades de crescimento da acessibilidade no mercado editorial, a analista do Sebrae Nathalia Barbosa afirma que aqueles que se adiantarem em oferecer soluções que têm boa demanda e pouca oferta no segmento tendem a aproveitar melhor a oportunidade. Ela indica que empreendedores comecem realizando uma pesquisa de mercado para entender melhor as necessidades do público-alvo e identificar as lacunas a serem trabalhadas.
A especialista também aponta que uma boa estratégia é buscar parcerias com organizações que trabalham com os consumidores desejados. Outra sugestão é criar comunidades em torno da marca, onde leitores possam compartilhar experiências e necessidades e, assim, fortalecer o relacionamento com um público, que tem alto potencial de fidelização.
“Pessoas com deficiência de todos os tipos se veem excluídas da experiência leitora no Brasil de diversas formas. Se já nos falta tempo na correria do dia a dia para se dedicar à leitura, imagine para quem encontra barreiras adicionais. Perdemos como sociedade, mas perdemos também como mercado, pois são possíveis consumidores que optamos por ignorar”, conclui Isadora Cal.
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