Empreendedores criam startup para desenvolver barco voador

O objetivo é encurtar distâncias na região Amazônica, facilitando o dia a dia e a economia do local Quem nunca esteve lá ou nunca teve contato com pessoas que vivem na Amazônia, provavelmente desconhece: há trajetos entre cidades, vilas e lugarejos que têm de ser feitos pela água. Simplesmente não há outro jeito. Ou melhor, em alguns casos, dá para ser de avião. Mas o alto custo derruba a chance de isso acontecer. Ir de Manaus (AM) para uma comunidade localizada na região metropolitana, por exemplo, pode levar horas de barco. De Belém para cidades que seriam percorridas em poucas horas se houvesse rodovias ou ferrovias, a viagem pode durar dias.
Lucas Guimarães, 30 anos, e Felipe Bortolete, 29, estavam terminando seus cursos de mestrado e doutorado no ITA (Instituto de Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos (SP), quando pensaram em empreender juntos. Após muitas conversas e estudos para identificar problemas na região Amazônica – Lucas é de Manaus e Felipe é de Porto Velho (RO) – concordaram que a logística é a maior trava nos negócios, justamente em função da dificuldade no transporte.
Em meados de 2021, junto com Túlio Duarte, 45 anos, fundaram a AeroRiver. Eles concluíram que um veículo, meio barco, meio avião, seria a melhor solução para levar pessoas e carga pelo ar e pela água. “Foi assim que surgiu o projeto do nosso veículo de efeito solo – como é chamado o fenômeno aerodinâmico de aumento da sustentação produzida pela reação ao deslocamento do ar quando a aeronave paira ou se desloca próxima a uma superfície plana, como o solo ou a água. Ele se parece bastante com um avião, mas sua principal característica é que voa muito baixo, de 2 metros a 5 metros da superfície, sempre sobre a água. É na água que ele decola e pousa”, explica Guimarães, que é diretor executivo da startup.
O empreendedor conta que o veículo, que eles chamam de aerobarco, tem muitas vantagens: em função de seu efeito aerodinâmico, o tal efeito solo, ele pode ser 40% mais eficiente em relação a gasto de combustível, se voasse mais alto. Outro ponto a favor é que, como voa baixo, é regulamentado como embarcação, e não como avião. “Por isso, o processo de certificação é mais ágil, simples e mais barato. Se fosse o caso de certificá-lo como avião, o custo seria de milhões de dólares”, ressalta.
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Como esse meio de transporte gasta menos combustível e não será necessário investir alto em regulamentações e certificações, o aerobarco poderá cobrar valores acessíveis pelas passagens, segundo Lucas Guimarães, em média de 10% a 15% mais caro do que se paga por um tíquete numa viagem de barco.
A versão projetada para ser comercializada terá capacidade para transportar dez passageiros, além do piloto e do copiloto. “O aerobarco vai voar a 150 km por hora, enquanto um barco anda a no máximo 30 km por hora. Ou seja, será um ganho de velocidade gigantesco”, aposta o cofundador da AeroRiver.
Rumo à realidade
De 2021 para cá, o aerobarco teve duas fases. Já foi um pequeno protótipo não tripulado, parecido com um aeromodelo, com funcionamento por controle remoto. E neste momento, a AeroRiver está desenvolvendo um protótipo maior, mais próximo ao que ele será “de verdade”. Ele estará pronto para testes tripulados no final deste ano, com menos assentos, porém, bem fiel à versão final. “Dando certo, o plano é lançar em escala comercial no final de 2026”, afirma Lucas Guimarães.
O empreendedor acredita que o aerobarco será algo inovador e mudará a dinâmica do transporte na Amazônia. “Prevemos uma receita acumulada de US$ 2 bilhões até 2035. E olha que ela não considera o impacto que esse veículo vai causar ao melhorar a logística, possibilitando negócios sob diferentes aspectos”, afirma.
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Há bastante gente interessada nisso e apostando alto para viabilizar o barco voador. Desde que ainda era um projeto, a startup recebeu diversos investimentos. O primeiro, de investidores-anjo, ligados a um grande varejista do Norte, logo no início, em 2021. No ano seguinte, o segundo, que veio de um grupo de práticos (especialistas que conduzem navios em segurança na atracação e desatracação nos portos) do Amazonas.
Depois disso, tiveram fomentos da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), ambos vinculados ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, e do Programa Prioritário Manaus, iniciativa estratégica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para impulsionar setores específicos da economia. O total foi de aproximadamente R$ 18 milhões ao longo dos anos.
Com esses recursos, a startup desenvolve os protótipos em duas frentes de trabalho: uma baseada em São José dos Campos, onde conta com mão de obra especializada do ITA e da Embraer para a maior parte do projeto, que é aeronáutico, e em Manaus, onde é feito o projeto naval.
Sem os investimentos, nada disso seria possível. Por isso, Guimarães considera reconhecimentos como estar entre as 100 Startups to Watch bem importantes, porque chama a atenção do mercado. “Esse prêmio valida o trabalho que estamos fazendo. É a confirmação de que não somos um bando de meninos malucos que sonham fazer algo. Sem contar que ele ajuda a nos tornar mais conhecidos, atingindo bolhas que talvez nunca tivessem ouvido falar da AeroRiver, como os setores do agro e da saúde, extrapolando o mundo naval e aeronáutico”, resume.
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